12/10/2016 12:55
Nascer cinco estrelas
'Nas aulas mais chatas, eu ficava desenhando jogadas imaginárias, dribles impossíveis e os gols de falta do Nelinho'
Ser criança é ter a capacidade de sonhar acordado, voar sem ter asas, lutar contra monstros inexistentes, dar vida a bonecos inanimados e ter o brilho no olhar ao menor sinal de carinho e atenção. Ganhei meu primeiro presente antes mesmo de saber falar. Com menos de um ano, mal sabia andar e já era campeão brasileiro. Nem toda a pressão familiar para que eu me tornasse um integrante do lado alvinegro da força foi suficiente para mudar o meu destino de ser feliz e apaixonado pelo manto azul.
Meu grande ídolo de infância não foi um super-herói importado de algum desenho animado ou revista em quadrinho. Foi um ponta-esquerda endiabrado com sua cabeleira black power, que corria mais rápido que o Steve Austin, o homem de seis milhões de dólares. Sua irreverência, quase irresponsável, era a mistura ideal para agradar a qualquer criança. Nunca gostei dos heróis perfeitos. Adorava o Pato Donald, que está sempre vestido de azul e dono de um mau humor crônico.
Treinava em casa os dribles que o Joãozinho fazia em campo para talvez repetir em algum grande estádio. Logo cedo descobri que precisaria usar óculos. Isso engavetou qualquer possibilidade de me tornar um jogador, além de ser um grande perna de pau. Deficiências que me levaram para o gol, local pouco atraente, mas que me atraía por causa dos voos que, às vezes, era obrigado a fazer.
Não havia games em 3D ou HD, no máximo um videojogo. Nas aulas mais chatas, eu ficava desenhando jogadas imaginárias, dribles impossíveis e os gols de falta do Nelinho – que faziam curvas desafiando as leis da física. Por isso que eu digo que ninguém se torna cruzeirense, já nasce cinco estrelas.
Hoje os heróis são outros. Temos o Raposão e seu fiel escudeiro, que alimenta e realiza o sonho dos futuros torcedores. Por outro lado, temos os jogadores que chegam e saem. Muitos beijam o escudo com carinho, outros apenas para tirar fotos. O futebol, a cada ano, se torna mais profissional, esquecendo-se de sua essência: a de ser um esporte movido a paixão. Não podemos estragar o mundo imaginário infantil, em que todo jogador é super-herói, um ser capaz de fazer jogadas impossíveis. Nomes que, até mesmo quando adultos, guardamos na memória com carinho.
Hoje já temos avôs que viram, quando criança, o Cruzeiro ser campeão brasileiro em 1966. Que em 2003 levaram seus filhos para ver o bicampeonato e que recentemente levaram os netos para ver os títulos de 2013/2014. São gerações que continuam sonhando com títulos e momentos felizes, torcendo para o maior de Minas.
O presente que podemos dar as nossas crianças nesta semana é uma vitória sobre o líder do campeonato. Só fico na dúvida se esse resultado ajudaria a turma do Bairro de Lourdes. Mas algo me diz que eles estão numa fase inofensiva, e que o único título que ganharão neste ano é ter um atleticano na prefeitura de Belo Horizonte.
Feliz Dia das crianças, e que elas continuem sempre com seus sonhos impossíveis. Mesmo adulto, continuamos sonhando.
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