13/5/2016 13:37
Novas caravelas portuguesas
Além de se adaptar ao clube, o treinador terá de se adaptar ao país - e não pense que a forte ligação entre as duas nações vai facilitar essa equação
Ao decidir deixar a Europa para comandar uma equipe do futebol brasileiro, o técnico português Paulo Bento tomou uma decisão arrojada – assim como os dirigentes do Cruzeiro. Afinal, o mais usual é o fluxo contrário pelo Atlântico, com brasileiros aportando em Portugal para se aventurar pelos “relvados” d’além-mar. Nessa balança comercial dos gramados, os lusos têm levado larga vantagem, com experiências bem-sucedidas tanto com jogadores como com treinadores brasucas. A lista de comandantes, especificamente, reserva lembranças que até hoje eles guardam com carinho, que vão de Otto Glória (comandante da seleção no festejado terceiro lugar na Copa do Mundo de 1966) a Luiz Felipe Scolari, que, entre 2003 e 2008, levou os portugueses ao vice-campeonato da Eurocopa’2004 e ao quarto lugar na Copa do Mundo’2006, o que lhe rendeu uma medalha de reconhecimento do governo do país e o motivou a fixar residência por um período na aprazível cidade de Cascais.
Na segunda-feira, Paulo Bento começará a escrever uma página inédita na trajetória celeste, sendo o primeiro treinador português a dirigir a Raposa em seus 95 anos. A missão não será fácil. Além de se adaptar ao clube, o treinador terá de se adaptar ao país – e não pense que a forte ligação entre as duas nações vai facilitar essa equação. Até o idioma, embora o mesmo, tem lá suas diferenças. O gramado é relvado, time é equipa, goleiro é guarda-redes, camisa é camisola e por aí vai.
Uma passeada pela imprensa esportiva lusa e brasileira traz à tona fatos pitorescos de portugueses que estão ou estiveram no futebol tupiniquim recentemente. E eles não tiveram vida fácil. Essa história pode começar a ser contada a partir de um xará do comandante cruzeirense: Paulo Fernandes, de 41 anos, que durou apenas 20 dias no Paulista, do interior de São Paulo. Contratado em 12 de janeiro, por meio de parceria entre o clube e um investidor europeu com a promessa de trabalho a longo prazo, ele não resistiu à primeira derrota – 4 a 1 para o Bragantino, na estreia da Série A2 do estadual.
Outro caso curioso é o de Luís Miguel, bem rodado no futebol do Norte e Nordeste do país, já tendo comandado Cordino-MA, São José-MA, Quatro de Julho-PI, Holanda-AM, São Raimundo-AM, Ananindeua-PA, Guarabira-PB, Esporte de Patos-PB, Tiradentes-CE, Tianguá-CE, Vitória de Santo Antão-PE e Corinthians-RN. Sua última experiência foi no maranhense Imperatriz. Foram apenas cinco jogos à frente da equipe, com uma vitória, um empate e três derrotas. A saída, em 19 de abril, não ocorreu por critério técnico – foi ele quem pediu demissão, alegando, entre outros fatores, más condições de trabalho. Por falta de dinheiro, o clube cortou a alimentação dos jogadores e a comissão técnica teve de custear almoço e jantar do grupo em um dia de jogo pelo Campeonato Maranhense.
Mais um Paulo completa essa trilogia inusitada: Paulo Morgado, que assumiu o Icasa nesta semana para a Série D do Brasileiro e foi rápido no gatilho: bastaram alguns minutos de bola rolando no primeiro treino com o grupo para que ele observasse os jogadores e apresentasse à diretoria lista com nove nomes de atletas para serem dispensados. Lisboeta, Paulo Morgado veio para Brasil em 2011 para dirigir o Rio Negro, do Amazonas, convencido por um empresário de que teria boas condições de trabalho e dirigiria Jardel, ídolo no futebol português.
O roteiro não seguiu bem o que ele esperava – nem Jardel. Foram quatro meses de salário atrasado, mas outras portas acabaram se abrindo, e o português decidiu se estabelecer pelos lados da Amazônia, mesmo tendo de lidar com o forte calor, os mosquitos e a umidade, além de um desorganizado campeonato. “O que o fez ficar?”, perguntou um repórter português.
“Financeiramente, é muito mais vantajoso estar no Brasil. Aqui, um jogador mediano ganha mais do que 2 mil euros por mês. Um técnico ganha bem mais do que isso, com tudo pago, incluindo carro e casa”, respondeu Morgado, que diz ter frequentado o curso da Uefa ao lado de Paulo Bento e até passeado com o treinador do Cruzeiro por Manaus na época do sorteio dos grupos da Copa de 2014. Como seus ancestrais, ele vieram atrás do ouro brasileiro. E se contentaram com os reais.
1293 visitas - Fonte: Cruzeiro