22/2/2016 14:20
Parece que Deivid está carregando os pecados do mundo
Time de Deivid ainda não rendeu o esperado. Mas irritante mesmo está a corneta de parte da torcida
“Eu tinha apenas 17 anos no dia em que saí de casa. E não faz mais de 4 semanas que eu estou na estrada. Mas encontrei tantas pessoas tristes, desaprendendo como conversar, que parece que eu estou carregando os pecados do mundo”. Os belos versos setentistas da “Primeira Canção da Estrada”, do trio Sá, Rodrix & Guarabyra, contam a história de um jovem hippie que, na condição de caroneiro, resolveu desbravar caminhos e desafios sem saber bem onde daria seu próprio destino. Menos de quatro semanas na estrada, viu que nem tudo seria tão fácil, daí a expressão clássica “parece que eu estou carregando os pecados do mundo”.
Outro jovem parece estar carregando todos os pecados do mundo, se a gente pegar por aí as diversas opiniões da torcida do Cruzeiro em cima de Deivid. Tal qual o sujeito da música do trio de rock rural, o treinador está na estrada há menos de quatro semanas, e todos os pecados do mundo parecem recair sobre suas costas.
Há mais ou menos dez anos, quando ainda era jogador, Deivid botou na cabeça que gostaria de ser técnico um dia. A oportunidade veio logo de cara no Cruzeiro, após alguns anos sendo auxiliar e estudando a parte teórica. Sua maior sorte tem sido seu maior pesadelo, porque tudo que o treinador tem feito, mesmo quando acerta, tem sido motivo de desconfiança.
Não estou aqui para defender Deivid. Mas semana passada me ocorreu algo inusitado. Três pessoas com bom poder de discernimento me disseram que dariam um voto de confiança ao treinador por um simples motivo: elas estavam com má vontade em relação ao seu trabalho.
Concordo que o começo tem sido meio aos trancos e barrancos. Eu mesmo tenho minhas cornetagens, especialmente ao fato do treinador abandonar um esquema tático que fez a equipe render no fim do ano passado, independente de quem era o treinador. Tenho a impressão de que, justamente por ser um novato e ter que encarar todo mundo de frente apontando o dedo em sua cara, Deivid quis logo mostrar serviço e aplicar seus conceitos, mesmo que para isso tivesse que mudar a forma de jogar do time. Não tem dado tão certo, mas isso não significa que o treinador não presta.
Partindo desse ponto, dos meus amigos que me disseram dessa má vontade, parei para pensar: tudo bem, o rendimento está longe do esperado. Mas é para tanto alarde assim? O time está essa desgraça toda? Por que o cruzeirense sempre cisma que tudo está ruim?
Quem pensa o contrário sempre tem a resposta na ponta da língua: cruzeirense é exigente, por isso o clube é o que é. Concordo até certo ponto, mas ser exigente está longe de ser alguém com má vontade e pré-conceitos prontos. E mais longe ainda de ser chato. O que é o caso, às vezes.
Fico pensando como é fácil pedir para que a diretoria mude logo o treinador, após seis jogos na temporada. Ser pedra é fácil. O jogo de sábado mesmo... O Cruzeiro criou entre oito e dez chances de gol. Alisson jogou na sua, pela esquerda. Deivid voltou para o esquema que melhor se aplica ao time. E ainda assim, o comentário de 90% da torcida foi “não se pode tomar sufoco do Tricordiano”. Tudo bem, não pode. Mas dois dos três ataques finais do time de Três Corações foram irregulares. E antes disso o Cruzeiro criou muito também. Se não tivesse criando, acho que procederia o chororô. E no atual contexto do Cruzeiro, em que tudo parece estar ruim para muita gente, qualquer detalhe faz uma baita diferença.
Acho que tem muito cruzeirense com o discurso pessimista pronto. Sempre vai ter um asterisco nas vitórias pelo simples fato do técnico “não ter treinado um Criciúma antes”, “ser um aprendiz”, “ser um piloto de Fusca com uma Ferrari na mão”. São todas frases que você invariavelmente já ouviu no estádio, na rua ou leu em alguma rede social ou grupo de Whatsapp.
Tudo isso só reforça a tese do pré-conceito, que nada mais é do que um juízo maniqueísta e simplório, e que serve basicamente para discriminar algo ou alguém de forma prematura.
Do mesmo jeito que o time do “aprendiz” Deivid ainda não rendeu, o São Paulo do bicampeão da Libertadores Bauza também está patinando, o Palmeiras do bicampeão brasileiro Marcelo Oliveira não sai do lugar e o Flamengo do multicampeão Muricy Ramalho ainda se ajeita. A paciência com os outros caras é maior só por causa do currículo? Se sim, com qual autonomia pode se cobrar de forma tão exagerada de Deivid se ninguém ainda sabe como o técnico vai trabalhar?
É tudo no campo do achismo. Uma ansiedade besta que não ajuda em nada. Uma falta de paciência que atrapalha um início de trabalho. Uma desconfiança que vira ódio em questão de segundos, após incríveis seis jogos na temporada. Sou daqueles que acreditam que todo tipo de extremismo cega as pessoas, seja a favor ou contra algo/alguém.
Eu prefiro esperar que as coisas aconteçam como devem acontecer. Se der errado, não vão ser seis jogos que devem determinar. Acredito no trabalho e vejo em Deivid alguém que tem vontade de vencer. Daí, as escolhas certas têm que partir dele. E parece que aos poucos elas estão aparecendo em maior volume. Não vejo motivos latentes assim que justifiquem essa corneta absurda.
2934 visitas - Fonte: ESPN