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3/5/2024 11:30

Paulo André critica saída do Cruzeiro e chama Ronaldo de "maluco

Paulo André critica saída do Cruzeiro e chama Ronaldo de maluco

Na adolescência, Paulo André tomou duas decisões que moldaram sua vida. Primeiro, trocou o tênis pelo futebol. Alguns anos depois, apresentou-se como zagueiro sem nunca ter jogado na posição. “Sou um sobrevivente”, disse ao Abre Aspas. Um sobrevivente e um inconformado. Como jogador, ganhou todos os títulos possíveis pelo Corinthians. Nem por isso deixou de se arriscar e foi uma voz ativa no Bom Senso FC, movimento que chamou a atenção para problemas graves e estruturais no futebol brasileiro. Ao Abre Aspas, gravado na sede da Globo Minas, em Belo Horizonte, Paulo André fez um repasse de sua carreira como jogador e detalhou seus dois anos como dirigente do Cruzeiro , o primeiro grande clube do Brasil a se tornar SAF – e também o primeiro a ser revendido. A maior parte da entrevista a seguir foi gravada antes da saída de Ronaldo e do próprio Paulo André do Cruzeiro, mas atualizada nesta semana. Ficha técnica: Nome completo: Paulo André Cren Benini Nascimento : 20 de agosto de 1983, em Campinas (SP) Carreira como profissional : Guarani, Athletico-PR, Le Mans (França), Corinthians, Shanghai Shenhua (China), Cruzeiro Principais títulos: Campeonato Paulista (2013), Campeonato Brasileiro (2011), Copa Libertadores (2012), Mundial de Clubes (2012), Recopa Sul-Americana (2013), Campeonato Paranaense (2016 e 2019), Copa Sul-Americana (2018) e Copa do Brasil (2019) Confira a entrevista com Paulo André: ge: Como se sente após ter saído do Cruzeiro? Paulo André: – Eu me sinto orgulhoso ao finalizar essa etapa. Tenho a sensação de dever cumprido tanto ao clube, quanto ao torcedor, quanto ao Ronaldo, que confiou em mim para esse processo de restruturação. Conseguimos cumprir os objetivos traçados para estes primeiros dois anos, tanto esportivos quanto os financeiros. E só quem viveu o dia a dia do Cruzeiro, desde a compra, pode ter a magnitude desse feito, do que nós passamos no dia a dia para resgatar esse gigante. O saldo é extremamente positivo. Saio feliz e agradecido por ter feito parte dessa história. E agora? – O que eu posso dizer é que, na próxima semana, eu sigo para a Espanha. O objetivo é acompanhar o Valladolid nos últimos jogos da Segunda Divisão. Nós também temos o desafio lá de devolver o clube ao seu lugar, que é a Primeira Divisão. Meu contrato com o grupo, com o Ronaldo, vai até o dia 30 de junho. E depois? – E, a partir daí, vou falar sobre o futuro. Assim que sentir aquele friozinho na barriga, vou encarar um novo desafio. Quero aprender. O que me estimular a aprender e desafiar, eu vou comprar. Se virar uma rotina maçante, estou fora. Vou para casa, jogar meu tênis e fazer minhas coisas. Não estou nisso por um emprego, mas quero fazer coisas diferentes dentro das minhas limitações, que são muitas. Você foi parar no Cruzeiro por culpa do Ronaldo? – Foi. Essa relação começa lá em 2009, quando vou para o Corinthians, e o Ronaldo já está lá. É um cara muito divertido, muito curioso. A gente se conecta e essa amizade vai crescendo. Nos aproximamos muito. Quando o Ronaldo encerra a carreira, perdemos um pouco de contato. Quando eu saio do Athletico, o Ronaldo promove um torneio de tênis na casa dele. E lá comenta sobre o Valladolid, me convida para visitar e conhecer a estrutura. Algum tempo depois, eu acabo indo trabalhar lá. Quando ele faz o que parecia uma loucura – e hoje se mostrou um grande acerto – que foi comprar o Cruzeiro, eu venho junto com ele. Como era conviver com o Ronaldo no Corinthians? Todo mundo dividia quarto na concentração, e ele ficava sozinho? – Era isso mesmo. Era divertido, porque éramos todos fãs, e ele é um cara muito acessível para qualquer um. A gente ficava admirado, ele permitia que a gente ficasse naquele convívio. Era um grupo muito legal, tinha William Capita, Edu Gaspar, depois Roberto Carlos. E aí Elias, Paulinho, Jucilei, Ralf. Grandes jogadores em final de carreira, e jovens que vieram de clubes periféricos. Eu lembro que, em 2009, o Ronaldo brigava porque o campo de treino não era molhado para o jogo ficar mais rápido. Aquilo no Brasil era impensável. A gente pensava “esse cara é chato, fica reclamando de tudo”. Mas ele estava à frente e tinha razão. Ele acelerou processos que ajudaram muito o Corinthians a crescer naquele período. Ele tinha acesso a tudo. Acabei conhecendo pessoas, momentos e tive oportunidades que a vida me deu por ter cruzado com esse cara duas vezes ao longo da vida. Como viraram amigos? – Foi natural. Como eu tinha voltado da França na época [2009], ele me apadrinhou. A gente fala de investimento, de um monte de coisa. Talvez tenha me convidado para sair para jantar algumas vezes. E, dali para frente, eu acabei virando um parceiro, e minha busca era por equilibrar, porque eu sabia da importância dele para o time. A gente ficava nessa de “eu vou, mas você volta um pouco mais cedo”. E a gente foi construindo essa relação. No livro ("O Jogo da Minha Vida") você conta uma história boa sobre uma partida de tênis… – Nós estávamos concentrados em Itu, aqueles períodos de 10 dias. O Ronaldo aborrecido com tudo, criticando tudo, querendo fugir de lá. E ele tinha uma característica: tudo que fosse apostando, ele fazia. Tudo o que era pedido, ele não estava nem aí. O preparador físico do Corinthians, entendendo esse lado dele, me falou: “Paulo, hoje à tarde você não vai treinar. Vai jogar tênis com o Ronaldo”. A gente foi para a quadra e mudou as regras: ele saía com 30 a 0 e podia jogar nas linhas de duplas (que tornam a quadra maior), enquanto eu só podia acertar nas linhas de simples. Apostamos que eu ganharia de 6/0, e ele ficou maluco. Ao fim do jogo, o preparador físico falou que tinha sido o treino em que o Ronaldo tinha batido as máximas de frequência e que daquele jeito conseguiríamos enxugar “o gordo”. Eu acho que foi 6/0, mas ele vai falar que não. E o pôquer? – A gente começou a jogar, virou moda naquela época. O Edu [Gaspar] jogava bem. A gente brincava que o Ronaldo tinha dinheiro infinito, então ele não perdia nunca. Ele dava “all in”, perdia e jogava de novo. E a gente contando as migalhas para não perder e sair do jogo. Na época as concentrações eram mais longas. Ele e o Roberto Carlos numa mesa de almoço contando histórias são as lembranças mais hilárias e mais legais que a gente tem. De volta ao Cruzeiro: a situação que vocês encontraram era pior do que se imaginava? – Tinha de tudo. Absurdos, condições inacreditáveis e totalmente lesivas ao clube. Era um negócio assustador. A condição da Toca 1, da base, deplorável, colapsando. Não havia área de mercado, área de performance, não havia nada. Em algum momento, vocês pensaram em voltar atrás e desistir do projeto? – O Ronaldo foi maluco, porque ele começa a atuar no clube sem ter comprado o clube. Isso não existe em um processo de reestruturação. Ele deveria [entrar] só depois da aprovação, pelo conselho, da compra. Mas a gente entrou bem antes. Ele coloca dinheiro antes para liberar transfer ban, para a gente poder inscrever jogador, para poder jogar o campeonato (Mineiro). Foi um processo à brasileira, mas ao mesmo tempo foi o que o Cruzeiro precisava. Se não fosse daquele jeito, eu acho que não teria dado jeito. E aí se perderia aquele ano, que talvez fosse o ano derradeiro, da destruição desse clube gigantesco e maravilhoso que é o Cruzeiro. Como foi o momento da saída do Fábio? Qual foi a sua participação nisso? – Essa, sem dúvida, foi uma das decisões mais difíceis daquele início. Entre salvar o ídolo e salvar o clube, a gente optou por salvar o clube. Infelizmente, as histórias não continuaram juntas naquele momento. Administrativamente [depois] houve contato, acertos, acho que as partes se acertaram e conseguiram conduzir de forma amigável. Fico feliz, porque ao sair daqui ele conseguiu ter sucesso no clube novo, o Fluminense, foi campeão da Libertadores. Ninguém nunca questionou a qualidade dele como goleiro, a qualidade como pessoa. Acho que os dois lados seguiram e seguiram bem. Como você avalia, olhando de hoje, seu envolvimento com o Bom Senso FC? – Orgulho de ter participado, de ter feito parte de um movimento tão genuíno, que partiu da percepção de jogadores mais experientes, de quão rápido a Europa estava indo em desenvolvimento de futebol, seja na prática do jogo, seja no espetáculo, seja na formação de novos jogadores. – Aquela foi a forma que nós encontramos para chamar atenção para o descaso, ou o desleixo, dos dirigentes brasileiros em relação ao que estávamos vendo lá fora e que a distância entre um futebol e outro só ia aumentar. Aquele grupo de pessoas anteviu o tsunami que estava por vir, porque dali para frente vieram as prisões dos dirigentes brasileiros, veio o 7 a 1, veio a quebra dos clubes, veio essa necessidade da SAF para salvar tantos clubes históricos e grandiosos quebrados, veio essa dificuldade de times sul-americanos de ganharem Mundial, veio o Brasil caindo nas Copas do Mundo, veio agora o Brasil ficando de fora das Olimpíadas. – O Bom Senso nunca foi uma luta de classes, sempre foi um movimento pró futebol. Levantamos apenas duas bandeiras: calendário mais justo e equilibrado (um problema até hoje) e fair play financeiro, porque estava claro que os clubes atuavam dopados financeiramente. Você acha que conseguiu ser mais influente como jogador do que como dirigente? – Eu não participo dessas discussões hoje em dia. Até hoje não fui convidado a participar. Eu estou à disposição para participar, caso alguém queira me convidar, eu participo dentro de uma sala, conversando, discutindo, debatendo, eu acho que há muito o que crescer e melhorar. Eu estou disposto a ser uma voz que constrói esse caminho. Como o futebol entrou na sua vida? – Eu nasci atrás de uma bola, qualquer coisa que tivesse uma bola eu estava envolvido. Com 12 ou 13 anos, eu jogava bem tênis e futebol. E podia escolher um caminho. Os meus amigos saíram do futsal e foram para o campo. Eu ia aos fins de semana jogar torneios de tênis. Comecei a me sentir um pouco sozinho, queria ficar com meus amigos e fui para o campo também. Não tinha o sonho de ser jogador, porque eu via os caras na TV e não achava que tinha nível para aquilo. Mas tinha um grande amigo meu, Murilo, que jogava no São Paulo na época e sempre vinha para Campinas passar os finais de semana. Eu pensei: “Se ele joga no São Paulo, eu também posso jogar”. Consegui um teste, com 14 para 15 anos, e nos três anos seguintes morei embaixo da arquibancada do Morumbi. Começou ali a minha cruzada para tentar virar jogador de futebol. É verdade que você jogava como meia, mas inventou que era zagueiro para sobreviver a um corte? – Minha vida foi sobreviver. Uma vez que você não é o melhor no que faz, precisa entender como sobreviver. Na virada do Sub-15 para o Sub-17, o São Paulo reduziu a quantidade de jogadores. E aí virou um peneirão de jogadores que já estavam no clube. O treinador mal conhecia os que estavam subindo e saiu perguntando: “Você aí, joga de quê?”. E começou a anotar para montar os times, fazer os testes e os cortes. Eu entendi o que estava acontecendo, fui para o final da fila e comecei a contar. Na época, eu era meia direita. Imagina o tamanho do fracasso que eu seria se continuasse nessa posição? Tinha um tal de Kaká que era dessa geração. Fui contando: meia direita tinha 15, volante tinha 12, zagueiro só tinha cinco. Quando perguntaram a minha posição, respondi: “zagueiro”. Nunca tinha jogado de zagueiro. Mas fiz bons treinos e fiquei. Foi a primeira das sobrevivências. Depois, joguei de volante na França, na China. Aqui no Brasil, nunca. A qualidade aqui era muito mais alta. No seu livro, você conta que passou muitas dificuldades na base, de estrutura, de tratamento. Isso melhorou? – Eu acho que não. Pontualmente, tem gente que está tentando fazer com que o ambiente seja mais saudável, mais acolhedor, mais humano, mas em geral, não. É um atraso gigantesco na formação de atletas no Brasil. Os clubes praticam hoje o que se praticava 30 anos atrás. É uma ala prisional dos meninos. No livro, eu falo sobre isso. Parece cavalo: treina, come e dorme. – Vai para a escola pública à noite, aparta esses meninos de um convívio social com outros mundos. Logo eles não desenvolvem outros aspectos, no convívio, na comunicação, nas relações. Os modelos de treino também são muito precoces: a partir dos 12 anos já se quer ganhar tudo, pensar no curto prazo, já se tem pressa. A formação não é bem feita. A pressão dos pais, dos agentes, é gigantesca. É uma fábrica de fracassos. – Um dos motivos que me levaram a ficar no futebol é tentar encontrar caminhos para fazer as coisas diferentes, fazer com que esses meninos e meninas se divirtam, tenham de fato uma formação dentro de um clube de futebol – que às vezes pode ser melhor do que em casa, pela questão social e financeira de algumas famílias. – Parece meio utópico querer falar de outros aspectos, mas a gente confia que formar melhores pessoas é formar melhores jogadores. E também oferecer outras opções de vida a eles. A paixão da minha vida é base. Os casos do Robinho e do Daniel Alves [ambos condenados por estupro] passam por essa estrutura? – Tem dois pontos importantes. O primeiro é objetivo: foram acusados, julgados, tiveram direito a defesa e foram condenados. Têm que cumprir a pena que foi determinada pela Justiça. Depois tem o aspecto mais subjetivo, de opinião minha: acho que se deve utilizar esses casos para mostrar que esse tipo de atitude, que nunca foi aceita, agora tem consequência. A gente, que tem voz, tem que levantar a bandeira, tem que usar a repercussão desses casos para avançar como sociedade. Qual foi o melhor técnico que você teve na carreira? – É impossível citar um, então vou citar três. Bem diferentes, mas lideranças formidáveis: Tite, Paulo Autuori e Fernando Diniz. Cada um da sua maneira, com seu conhecimento, mas [em comum] com um olhar para o ser humano. São caras que vivem essa vida pública de pressão, sob intenso escrutínio popular, e conseguem entregar valores, decência, títulos, rendimento. Temos que tirar o chapéu para esses caras. Eles têm que ser convidados para qualquer discussão sobre futebol brasileiro. Por que Diniz te marcou tanto? – Ao longo da minha carreira toda, eu senti angústia, medo

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