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12/2/2017 15:48

Revista do Cruzeiro: Meio doido, autêntico completo

Revista do Cruzeiro: Meio doido, autêntico completo
Perfil Rafael Sóbis
MEIO DOIDO, AUTÊNTICO COMPLETO

Rafael Sóbis é uma exceção no mundo da bola. Em um ambiente dominado pelo pagode, samba, funk e sertanejo, o atacante do Cruzeiro prefere ouvir AC/DC, Rolling Stones e Beatles. E se orgulha disso.

Texto: Alisson Guimarães | Fotos: Bruno Senna

Quem vai ao Mineirão acompanhar os jogos do Cruzeiro certamente bate o olho logo de cara no camisa 7 da equipe. Com um penteado cool, barba por fazer e diversas tatuagens, o personagem em questão se destaca facilmente em meio aos outros 21 atletas em campo, mas dispensa apresentações.

Aos 31 anos, Rafael Sóbis tem uma idade considerada das melhores para jogadores de futebol. Na plenitude de sua forma e experiência, o gaúcho de Erechim sempre se destacou pelo toque de bola refinado, mas também pela sua entrega, gols decisivos, títulos como a Copa Libertadores e campeonatos nacionais no Brasil e no México, e, claro, pelo seu estilo peculiar.

Espécie de estranho no ninho do mundo do futebol, o jogador é conhecido pelo seu gosto musical apurado. Fã de bandas como Rolling Stones, AC/DC e Beatles, Sóbis já foi chamado até de “extraterrestre” por companheiros de profissão, justamente por ir na contramão do ambiente boleiro, que tem como trilha sonora essencialmente gêneros como pagode, samba, funk e sertanejo. “‘Thunderstruck’, do AC/DC, é uma ótima música para entrar em um jogo. Se um dia eu for diretor ou presidente de um time, só vai ter rock no vestiário”, avisa.

Por mais que curta a turma de vanguarda, o atacante celeste está sempre atento com as notícias que envolvem bandas de rock mundo afora e anda preocupado com a escassez de novos grupos autênticos. “Os roqueiros de verdade vão parar em breve, e hoje não existem mais roqueiros. Os bons que existem estão morrendo. Imagina se no futebol você exclui o Messi, o Cristiano Ronaldo e o Neymar... Você vai ter que se contentar vendo shows de outros. Os feras estão todos indo e não tem nada bom surgindo. Está tudo muito comercial”, dispara.

O craque roqueiro acha que o avanço da tecnologia contribuiu para que as novas bandas estejam surgindo mais preocupadas em alcançar o sucesso do que serem originais. “Na época dos Stones, Beatles, do punk, não existia internet. Então, os caras não mudavam e se guiavam pelos seus estilos e raízes. Hoje em dia, se a moda é hip hop, as chamadas bandas de rock botam um rapper no meio. Olha só o Kings of Leon. Eles se lançaram com um puta disco de estreia, fizeram sucesso e mudaram total no meio do caminho”, avalia.

Nascido em um reduto tradicionalmente roqueiro, o gaúcho diz que gostaria de “ter tido 20 anos nos anos 80”, época considerada de ouro no rock nacional. Fã de grupos brasileiros como Titãs, Paralamas do Sucesso, Nenhum de Nós e Cachorro Grande, Sóbis cita ainda Black Keys e The Killers da (nem tão) nova leva internacional, mas enfatiza: “É tudo culpa do mercado. As bandas estão se perdendo. Rock não tem espaço no país mais. Hoje não tem banda fazendo rock”.

Poucas horas antes do eletrizante confronto contra o Corinthians, pelas quartas de final Copa do Brasil, Rafael Sóbis recebeu a Revista do Cruzeiro na concentração do time para falar 100% de música e contou que ainda pretende fazer diversas tatuagens com mensagens do gênero – citou a frase “Meio doido e vagabundo”, canção do Acústicos & Valvulados – que pode até montar uma banda quando se aposentar, e mostrou que é craque também neste assunto.

UM ESTRANHO NO NINHO

A paixão de Rafael Sóbis pelo rock surgiu ainda na adolescência, especialmente por dois motivos: a influência dos amigos gaúchos, todos crescidos em um reduto que essencialmente respira rock, e a aversão instantânea a outros ritmos que dominam o mundo da bola, como o pagode. “Se os jogadores puderem escutar 15 vezes a mesma música que está fazendo sucesso, eles escutam. Então, sem gostar, eu enjoei. Lá no Sul, na minha época, no meio dos anos 90, quando eu tinha de 12 a 15 anos de idade, me envolvi com gente que gostava de rock. Lá não tocava muito outros estilos de música. Aprendi a gostar, daí vieram as amizades, dessas de começar a ir para shows junto, e fui conhecendo outro mundo”, relembra.

Fã do rock das antigas, o atacante acredita que o grande diferencial do gênero em relação aos demais é a autenticidade. O camisa 7 é destes que curtem não apenas ouvir, mas apreciar o conteúdo das letras das músicas, algo que anda em falta em grupos contemporâneos. “Ainda tem uma banda boa aqui, outra ali, mas as que são mais autênticas hoje têm pouco espaço, porque o mundo mudou. Elas terão que lutar contra muita coisa se quiserem seguir no estilo delas. Acho que rock é falar o que quer, ter a loucura e a liberdade em termos de composição, expressão, poesia e mensagem. As canções da época que eu gosto têm letras muito inteligentes, que fazem o cara pensar e refletir”, ressalta.

Como era de se esperar, Sóbis sempre foi alvo de piadinhas por parte da ala dos pagodeiros e derivados do mundo da bola. “Os caras me zoavam muito, que eu era tipo um extraterrestre no meio deles”, conta. “No começo, era horrível. Hoje, se tocar um pagode ou um forró, sei até quem canta e posso até saber a letra, porque eles escutam isso todo dia. É uma democracia, a maioria vence. Respeito, mas não é a música que toca no meu rádio. Mas, já foi pior. Eles já sabem o tipo de som que eu curto. E, como já tenho uma idade mais avançada, a galera hoje em dia respeita mais”.

Foram poucos os companheiros roqueiros ao longo da carreira do atacante, que antes de chegar ao Cruzeiro passou por Internacional e Fluminense, no Brasil, e também pelo futebol espanhol, árabe e mexicano. Entre os citados por Sóbis estão Nei, ex-lateral do Internacional, e o goleiro argentino Nahuel Guzmán, com quem jogou no Tigres e saía às vezes para ver shows em clubinhos no México. “Lembro que ele fez uma loucura para ver um show dos Rolling Stones e levou a mulher e o filho junto. Eles foram ao show e acabaram até dormindo em um aeroporto na volta, sendo que ele tinha que treinar na manhã seguinte. Ele é muito mais louco que eu, porque isso é algo que eu não faria”, reconhece, sem deixar de detectar uma sutil diferença de costumes. “Fora do Brasil é mais fácil ser roqueiro, porque não se escuta pagode, por exemplo”, cutuca.

Para Sóbis, ouvir música é uma espécie de universo particular quando se está concentrado para uma partida de futebol e um ótimo exercício para matar o tempo ocioso que precede um jogo. “Tem dias em que estou mais elétrico e, em outros, estou mais pelas clássicas”, relata, já reconhecendo que não tem muita curiosidade em ouvir novos artistas. “Talvez eu até deixe de conhecer muitas bandas boas e contemporâneas justamente por não correr atrás. Só quando aparece na mídia que eu começo a acompanhar”.

Não por acaso, os nomes mais (e nem tão) contemporâneos presentes nas playlists de Sóbis são gaúchos, como o grupo Cachorro Grande e Alemão Ronaldo, ex-vocalista da Bandaliera. Há espaço também para o Nenhum de Nós, banda que alcançou sucesso nacional nos anos 80, e o Papas na Língua, que tem uma sonoridade mais ligada ao reggae e são amigos pessoais do jogador. O atacante celeste ainda não teve oportunidade de acompanhar shows de bandas mineiras, mas conta que já tem mapeadas as casas de rock de Belo Horizonte e pretende conhecê-las.

IT'S ONLY ROCK'N'ROLL (BUT I LIKE IT!)

Entre as centenas de canções armazenadas em seu celular, Rafael Sóbis tem suas preferências. Uma de suas bandas favoritas é o Guns N’ Roses, que passou recentemente pelo Brasil com sua turnê que reuniu em um mesmo palco os até então desafetos Axl Rose e Slash, separados por mais de duas décadas devido aos seus egos inflados e intensas desavenças pessoais.

Mesmo fã de carteirinha do grupo norte-americano, Sóbis olha com desconfiança a onda de bandas antigas voltando a se reunir após longo período separadas. “Particularmente, prefiro que elas continuassem como eram. Creio que essas voltas sejam mais para dar aquela sensação de saudade e nostalgia, de poder ver eles de perto. Afinal, eles já estão envelhecidos e talvez é a última turnê que a gente vai ver de bandas tão importantes. Acho que a galera tem que aproveitar, ver e tentar não comparar com o que as próprias bandas eram antigamente”, ressalta.

Outra banda que passou por um período de hiato e está no rol das preferidas do avante estrelado é a Blink 182. Fã do baterista Travis Barker, considerado por Sóbis o melhor do mundo, o atleta estrelado tem até uma tatuagem similar à do músico. “Quando me aposentar do futebol, farei várias outras [tatuagens]. Jogando, é muito difícil, porque no dia seguinte você está treinando, pode cair e raspar, e tatuagem requer muito cuidado. Mas, tenho muita coisa em mente. Quando parar de jogar, poderei fazer todas que quero tranquilamente”, antecipa.

Dos diversos shows que já viu na vida, o artilheiro cinco estrelas destaca o de Paul McCartney, realizado em Porto Alegre, em novembro de 2010. Fã confesso de Beatles, Sóbis ficou admirado com a comoção e impacto causados pelo lendário músico inglês em um público de diferentes faixas etárias. “Este é indiscutível. Vi pessoas de 8 a 80 chorando, foi algo absurdo”. Se já assistiu a algum show ruim? “Não me lembro, porque não sou de criar muita expectativa. Acho que, quanto mais expectativa você cria, maior é a tendência de se decepcionar. Um show depende muito do seu estado de espírito, do seu humor no dia, com quem você está assistindo, mas nunca me decepcionei com nenhum”, acrescenta.

Quando o papo é sobre discos favoritos, Rafael Sóbis conta que, por causa das constantes viagens que o calendário do futebol exige, não consegue ter um tempo para colecionar vinis e CDs, por exemplo, nem se dedicar a um determinado álbum. “Não tenho o costume nem tempo de ouvir música em casa. Eu ouvi muito os do Blink 182 durante a minha adolescência, quando eu tinha tempo. Mas, hoje em dia, ouço mais os do AC/DC e dos Rolling Stones. Se é para citar um álbum inesquecível, para mim é o ‘Californication’ (1999), dos Red Hot Chili Peppers”, aponta.

COMO UMA ESTRELA DO ROCK

Jogador de primeira linha do nosso futebol e com passagens pela Seleção Brasileira, Rafael Sóbis convive com uma peculiaridade que pode ser desfrutada por poucos. Acostumado a jogar para grandes públicos, de certa forma, o atacante pode ter duas visões distintas de quando está em campo sendo observado por milhares de pessoas ou quando está em um mesmo estádio lotado sendo apenas mais um em meio à multidão que assiste a um show de rock.

Caseiro, o atacante diz que se sente mal e tem até vergonha de grandes aglomerações, na condição de espectador. O desconforto passa apenas quando está em seu habitat de trabalho, atuando dentro das quatro linhas. “Por alguns momentos, a gente até esquece que tem 50 mil pessoas no estádio, tamanha a nossa concentração em um jogo. Para ir a público eu tenho vergonha, até boto um boné. Quando estamos em um show, você olha aquele artista no palco, se apresentando, e pensa: ‘caramba, estou aqui só por causa dele’. E, muitas vezes, acontece o contrário, com o mesmo número de pessoas indo ao campo para prestigiar o meu trabalho”, enaltece.

O jogador relata que esta ambiguidade serviu para ele enxergar o esforço dos torcedores com outros olhos. “Valorizo muito. Afinal, cada pessoa que vai ao show ou à uma partida de futebol tem sua história por trás. Nós jogadores, dentro de campo, às vezes não nos damos conta disso, do que cada pessoa que está ali fez para vivenciar aquele momento. Minha convivência com shows fez com que eu aprendesse a respeitar e valorizar. Cada pessoa tem sua história para estar ali e isso é muito gratificante”, reconhece.

Além das tatuagens, o atacante já tem em mente outro plano para quando pendurar as chuteiras: montar sua própria banda, nem que seja para tirar onda com os amigos. Poucas semanas antes de acertar sua vinda para o Cruzeiro, em junho deste ano, Rafael Sóbis ganhou de sua namorada mexicana uma bateria nova, que ainda não conseguiu transportar para o Brasil devido às altas taxas de importação.

Não por acaso, o instrumento é o seu predileto. “Não sei tocar, mas acho bateria algo sensacional. Se você tira todos os instrumentos de uma banda e deixa só a bateria, você nem sabe que música o baterista está tocando. Acho incrível que, ao mesmo tempo que em estão mergulhados na música, eles estão inseridos em um mundo particular, só deles. E, para tocar, tem que se ter uma coordenação absurda. Mesmo assim, quero fazer testes. Não sei se vou ter uma banda para valer, mas sei que vou encher o saco das bandas dos meus amigos fazendo muito barulho”. #

PLAYLIST - 10 CANÇÕES ESCOLHIDAS POR RAFAEL SÓBIS

AC/DC – Thunderstruck
The Rolling Stones – Gimme Shelter
Wander Wildner – Eu Tenho Uma Camiseta Escrita Eu Te Amo
The Killers - Jenny Was a Friend of Mine
Guns N’ Roses – Welcome to the Jungle
Acústicos & Valvulados - Meio Doido e Vagabundo
The Black Keys – Sister
Alemão Ronaldo – Me Leva Pra Casa
Cachorro Grande – Você Não Sabe o Que Perdeu
Paul McCartney – Live and Let Die

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