fotos: Cruzeiro/Divulgação
O futebol não é jogado apenas com os pés, mas, acima de tudo, com a cabeça. E é pensando nessa premissa que a delegação celeste na Copa São Paulo não conta apenas com profissionais da área esportiva, mas também com um psicólogo. Trazendo um olhar diferenciado para os jogadores, Jairo Stacanelli busca incutir nos jogadores um conceito culturalmente distante no futebol: o mindfulness.
“É a prática da meditação que mistura respiração. É uma frase curta, otimista, que precisa ser repetida ao longo do tempo. É um tipo de meditação que qualquer pessoa pode fazer, como, no caso dos atletas, quando eles estão no ônibus indo para o jogo. Assim, o atleta tem acesso aos elementos mais básicos do corpo, como tensão muscular, a própria repetição do pensamento negativo, o coração mais acelerado, fazendo com que fique mais calma e tenha mais amplitude de pensamento para tomar as melhores decisões na hora do jogo”, explica.
“Quando exercitamos isso com os meninos, tento fazer duas coisas acontecerem. A primeira é a mudança de cultura. No Brasil, o atleta de futebol acha que resolve sozinho, e a questão dos jovens vale mais ainda, porque há uma cultura de ser muito forte, muito potente. A segunda questão é a base da psicoterapia, que é a confiança. A cura virá através de uma fala que o jovem vai exercer, da reflexão e da confiança na pessoa que escuta. Isso é muito difícil, porque o macro não conduz para que isso aconteça. O jogador vê o Cristiano Ronaldo fazendo vários tipos de exercícios físicos, o Neymar fazendo vários dribles, mas, no futebol, ainda não é comum ver exercícios de meditação”, completa.
Nas modalidades individuais, atletas consagrados como Teddy Riner, do judô, e Usain Bolt, do atletismo, fazem uso do mindfulness. Em esportes de precisão, a prática também é comum. Durante a Olímpiada do Rio, a vitoriosa equipe de tiro com arco da Grã-Bretanha esteve na Toca I e, como ressalta Jairo, a psicóloga chegou a fazer exercícios de até uma hora em que pedia aos atletas que “puxassem o ar, para puxar o arco e soltarem o ar para soltar o arco”.
Com bem explica Jairo, o cérebro humano possui três partes: uma mais primitiva, outra ligada às emoções e, por fim, aquela ligada à capacidade de julgamento. Esta última é a mais jovem, o que torna necessário outros exercícios de concentração para acessar a parte básica do cérebro. O mindfulness cumpre este papel de controle da respiração através da meditação, que aprimora o poder de julgamento do esportista, inclusive em momentos de tensão.
“Com consciência de meditação, você controla a única parte básica possível: a respiração. Você não consegue pedir para que seu coração bata menos, nem que a musculação fique relaxada. Só se consegue isso através de meditação e respiração controlada com frases”, afirma.
“No treinamento, o jogador está muito calmo, a musculatura está bastante relaxada. É por isso, que o jogador tem mais dificuldades em cobrar uma falta durante as partidas, porque a modalidade de contração muscular no jogo é diferente”, completa.
Conhecimento testado na prática
Com um trabalho que se sucede a cada ano, Jairo vem quebrando barreiras culturais dentro da base celeste.O atacante Rick Sena aderiu aos ensinamentos e já os utilizou com sucesso na atual edição da Copa São Paulo.
“Quando era mais jovem não acreditava muito, só que depois de dois anos amadureci e vi que era um trabalho importante para a concentração e foco para as partidas. Utilizei estes ensinamentos já nesta Copinha, no primeiro jogo, quando perdi o pênalti. A primeira coisa que veio na mente foi o que ele tinha falado no dia anterior sobre respirar, pensar no que temos que fazer na partida e não ficar nervoso. Foi isso que tentei fazer, porque, geralmente, quando perdemos o pênalti, dá a ansiedade de fazer o gol, mas continuei tranquilo na partida”, relembrou Rick, que não foi o único beneficiado pelo mindfulness.
“A Copinha é um campeonato de grande expressão, uma vitrine. Este trabalho do professor Jairo ajuda a jogarmos mais concentrados e esquecer o extracampo. É de suma importância este trabalho. Quando fazemos os exercícios, sentimos uma leveza no corpo. A mente não tem nada, fica só focada no jogo e isso ajuda muito na concentração’, reforçou o lateral Kevin.
Para que a atividade fosse colocada em prática e começasse a dar resultados, Jairo Stacanelli precisou que o Clube cinco estrelas acreditasse em seu trabalho e, neste ponto, o psicólogo enaltece o técnico do sub-20 celeste, Marcos Valadares.
“É ele (Marcos Valadares) a quem se coloca o crédito de toda uma comissão técnica participativa. O treinador divide as responsabilidades. Se for centralizador, o psicólogo, o preparador físico, não trabalham direito. O Marcos confia em nós para que façamos um trabalho transdisciplinar, ou seja, um trabalhando junto do outro, de mãos dadas. Conquistando a confiança do treinador e dos jogadores, o processo funciona”, conclui Jairo.
