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13/8/2015 11:37

Gottardo relembra o Bi do Cruzeiro na Libertadores

Gottardo relembra o Bi do Cruzeiro na Libertadores
Bicampeonato da Libertadores completa 18 anos neste 13 de agosto de 2015

Se para muitos o número 13 e o mês de agosto são sinais de mau agouro, há 18 anos o Cruzeiro desafiava até isso para se tornar, talvez, o campeão mais improvável da história da Copa Libertadores.


Dado como virtual eliminado pela imprensa e por boa parte de sua própria torcida ao fim do turno da primeira fase, quando acumulou três derrotas em três jogos, incluindo uma troca de técnico no período, a equipe comandada por Paulo Autuori ganhou sobrevida ao vencer o forte Grêmio de Felipão dentro do Olímpico e confirmou sua reação ao bater os peruanos Alianza Lima e Sporting Cristal no Peru.


Na fase de mata-mata, eliminou nos pênaltis o El Nacional, à época ainda equipe das forças armadas equatorianas; tirou do seu caminho o Grêmio, em Porto Alegre, atual time do Brasil naquele período, com um gol histórico do contundido Fabinho; passou sufoco e se superou contra o Colo-Colo, em mais uma decisão de pênaltis, desta vez em Santiago; e culminou sua conquista ao bater o Sporting Cristal no Mineirão, com o gol mais certo com a perna errada de sua história, em tiro inesquecível de Elivélton quando o ponteiro já passava dos 30 minutos do segundo tempo.


Naquele 13 de agosto de 1997, além do gol do título, uma imagem ficou eternizada nas páginas heróicas e imortais azuis. O capitão Wilson Gottardo, que chegou ao clube para a disputa do mata-mata ao lado do artilheiro Marcelo Ramos, teve a honra e responsabilidade de levantar a desejada taça da Libertadores. Em um gesto único, fez questão de levantá-la o mais alto possível, para que as mais de 106 mil pessoas no Mineirão e os milhões de torcedores celestes vissem, no mundo todo, que a América era azul mais uma vez. “Lembro que eu fiz questão de levantá-la daquela forma, de botar a taça ‘em pé’ o mais alto possível, para mostrar e presentear a torcida, que nos abraçou durante a campanha”, diz o capitão do bicampeonato em entrevista exclusiva ao blog, na qual ele fala da épica campanha, dos jogos complicados, dos problemas internos e da emoção de ficar eternizado na história do clube.

Sempre costumo dizer que o título da Libertadores de 1997 é um dos mais improváveis da história da competição e do próprio Cruzeiro. Você também pensa assim?
Wilson Gottardo – É considerado como improvável por muitos. Mas para nós sempre houve confiança em mudar esse quadro e superar as dificuldades. Houve uma época em que muitos clubes brasileiros meio que entravam para o torneio para cumprir tabela. Na década de 90 começou um entendimento maior sobre o valor da competição. E o Cruzeiro entrou nela sabendo disso, porque já tinha a conquistado na década de 70. Isso engrandece qualquer clube e é a obsessão de todos. Tanto que hoje os clubes brigam para ficar no G4 do Campeonato Brasileiro.


O time fez uma primeira fase irregular, perdendo os três primeiros jogos de cara. Para a segunda fase, a diretoria buscou você e o Marcelo Ramos. Você acreditava que a equipe poderia chegar onde chegou?
WG – Acreditava sim. Porque eu já conhecia o Paulo Autuori, tinha trabalhado com ele em Portugal e no Botafogo e sabia do potencial dele. Não sabia ainda como estava sendo o trabalho ali na gestão do grupo. Mas já o conhecendo ele me passava uma mensagem de superação. Com a arrancada das três vitórias na primeira fase, a equipe já estava fechada e determinada para conquistar coisas maiores na competição e aquilo só deu mais confiança e credibilidade dentro da campanha.


Você chegou ao time e logo de cara assumiu a faixa de capitão. Como foi para você essa experiência e responsabilidade? Você enfrentou algum tipo de resistência?
WG – Isso não é comum acontecer. O Paulo conhecia minha maneira de agir, pensar e comandar o sistema defensivo. Eu já tinha sido o capitão dele no Botafogo (Campeão Brasileiro em 1995). Como ele sabia da minha conduta dentro e fora de campo, isso facilitou na decisão. Ele tinha suas maneiras de encarar o ambiente e achou que eu era a pessoa mais adequada para ser o capitão. Mas não era preocupação minha chegar ao Cruzeiro e ser capitão. Lógico que isso é motivo de orgulho até hoje. Mas o deixei bem à vontade e foi uma posição bem clara e definida por ele. O grupo de jogadores só me conheceria mesmo com o tempo. Tudo é gradativo e eles conheceriam minha conduta e caráter com o tempo. Apesar que alguns jogadores já me conheciam, como Fabinho, Rogério, Gelson Baresi e Palhinha. Já havia jogado com eles antes.

Na trajetória do título no mata-mata, foram verdadeiras batalhas contra El Nacional, Grêmio, Colo-Colo e Sporting Cristal. Qual destes adversários, para você, foi o mais complicado?
WG – Um jogo que acreditamos até o final foi contra o Colo-Colo lá (semifinal). Mesmo com a derrota, a equipe manteve a sobriedade, a esperança e a chama acesa para passar para a final. A gente não podia perder aquele jogo com placar dilatado e ainda tivemos a expulsão do Elivélton. Mas foi um jogo marcante e de superação.


É comum sempre apontarmos um jogo marcante na caminhada de um título. Em 97, alguma partida se encaixa nessa linha de pensamento?
WG – Foram muitos jogos difíceis. O Colo-Colo, por exemplo, foi muito complicado aqui e lá, muita pressão. Mas o Grêmio foi o jogo marcante. Costumo dizer que aquela foi a final antecipada, porque o Grêmio queria eliminar o Cruzeiro já na primeira fase porque sabia que seríamos um oponente difícil em um eventual mata-mata, em um novo cruzamento que acabou acontecendo. Eles se esforçaram ao máximo para nos eliminar. Foram jogos muito bem disputados em Belo Horizonte e Porto Alegre. Jogos quentes, diferentes, dignos de uma decisão.


Naquela época, Oscar Bernardi e Paulo Autuori deixaram o clube alegando “pressões internas”. Existia essa pressão? Ela chegava aos jogadores?
WG – Não posso afirmar sobre o Oscar porque não presenciei. Mas no caso do Paulo, ele deixou isso bem claro e nos disse que havia algumas condições de um diretor que ele não aceitava. Ele nos deixou bem claro que a Libertadores seria a última competição que ele disputaria pelo Cruzeiro naquele ano. O grupo de jogadores sentiu bastante e isso acabou sendo uma motivação a mais para conquistarmos o título e isso seria uma forma de honrá-lo com aquela brilhante conquista. A pressão sempre existe na vida de um treinador. Mas quando é algo pessoal, mais próximo, aí já é uma decisão diferente, de comportamento. E o Paulo sempre teve um comportamento diferenciado, acima do profissionalismo. E ali foi algo bem além do profissionalismo.
[Nota: Oscar Bernardi deixou o Cruzeiro após a estreia na Libertadores, com a derrota para o Grêmio, no Mineirão. Paulo Autuori se desligou do clube depois da conquista do torneio, por desentendimentos com o então diretor Morais, já falecido]


Depois da conquista do bicampeonato, o Cruzeiro bateu na trave algumas vezes na busca pelo tri, até com times mais técnicos que o de 1997. Existe alguma receita diferenciada para ganhar a competição?
WG – Aquela equipe (de 97) estava madura e preparada para buscar a conquista. Não basta ser um time bem estruturado, com boa técnica, mas emocionalmente não estar bem. Vimos as campanhas do Cruzeiro ao longo destes anos todos como o vice de 2009 e mais recentemente a queda para o River. Não basta o time ser bom, tem que estar emocionalmente preparado, psicologicamente forte. Lamentavelmente bateu na trave contra o Estudiantes. Aquilo foi uma imposição do adversário e o Cruzeiro não conseguiu reagir. E deveria ter sido o contrário. Em determinado momento do jogo, com o 1 a 0, um pouco mais de experiência, força física e até intimidatória seriam suficientes para o Cruzeiro conseguir o tricampeonato.


O Cruzeiro ainda corre atrás de um grande sonho, que é o Mundial de Clubes. Uma das maiores polêmicas da época foi sua exclusão do torneio, mesmo sendo o capitão do time, por decisão do Nelsinho Baptista. Dezoito anos depois, você conseguiu buscar uma explicação para este episódio?
WG – Na época, foi muito triste. Até hoje... Eu sabia que seria minha última oportunidade. Até pelo avançar dos anos. Não é tão fácil chegar à Libertadores, ser campeão e fazer parte de um jogo como o do Mundial. Falei com o Nelsinho na ocasião e ele havia dito que era uma decisão da diretoria. Depois, a diretoria disse que foi decisão do técnico. Eu não queria explicações. Só queria entender porque ele me tirou do time, porque até então eu estava bem, apesar da má fase do time. O Cruzeiro não estava bem no Brasileirão, mas eu fui o melhor em campo em três dos quatro primeiros jogos. Não havia razão para me tirar do time, a não ser que fosse algo pessoal. O que ele fez comigo, ele fez com 8 a 11 jogadores, culminando na exclusão de três do jogo do Japão, contra o Borussia. Lamentável. Não apoiei, não aceitei, não concordei com a conduta do treinador, não vi lealdade da parte dele. Lembro que meus colegas ficaram chateados e até a imprensa nacional. Foi lamentável, mas vida que segue. Quem sabe um dia eu possa chegar a um jogo como esse novamente pelo Cruzeiro ocupando uma função diferente...


A Libertadores daquela época era tida como mais difícil, porque reunia especialmente os campeões e vices de cada país. Como você vê a Libertadores atualmente, inchada com equipes de menor expressão?
WG – A competição sempre vai passando por avaliações, muda sua formatação e acaba atraindo novos investimentos, toma uma proporção mercadológica maior para todos. Continua com seu brilho, é fantástica. Hoje com mais repercussão, continua glamurosa. Não é uma competição fácil, é óbvio. Mas assim como o Campeonato Brasileiro, é muito difícil de ganhar. Vejo que naturalmente ela é e continua como alvo dos principais clubes da América Latina.


Sua foto levantando a taça da Libertadores é uma das mais famosas e marcantes da história do Cruzeiro. Você consegue descrever o tamanho da importância daquela cena na sua carreira, passados esses 18 anos?
WG – É marcante... Confesso que na hora não pensei que aquele gesto de levantar a taça, daquela forma, seria tão marcante assim e que seria relembrado pela torcida a todo o momento. Lembro que eu fiz questão de levantá-la daquela forma, de botar a taça “em pé” o mais alto possível, para mostrar e presentear a torcida, que nos abraçou durante a campanha. Depois, curti aquele momento com os companheiros. Me recordo que foi um ato pensado na hora. Mas confesso que não imaginava que a repercussão duraria estes anos todos, de forma tão saborosa. Ainda é saboroso. Não imaginava.

FICHA TÉCNICA DA FINAL - CRUZEIRO 1 x 0 SPORTING CRISTAL (PER)
Data: 13/8/1997
Estádio: Mineirão
Local: Belo Horizonte
Público: 95.472 pagantes / 106.853 presentes
Renda: R$ 888.072,50
CRUZEIRO: Dida, Vitor, Gelson, Gottardo, Nonato, Fabinho, Ricardinho (Da Silva), Donizete, Palhinha, Marcelo Ramos, Elivelton. Técnico: Paulo Autuori
SPORTING CRISTAL: Julio Cesar Balerio, Jose Soto, Manuel Marengo, Marcelo Asteggiano, Erick Torres (Roger Serrano), Pedro Garay, Nolberto Solano, Julio Rivera, Prince Amoako (Alfredo Carmona), Julinho, Luis Alberto Bonnet (Ismael Alvarado). Técnico: Sérgio Markarian
Gol: Elivelton (aos 30’ do 2º tempo)
Arbitro: Javier Castrilli
Auxiliares: Luis Olivetto e Gerardo Bertoni, todos da Argentina
Cartões Amarelos: Fabinho, Nonato (Cruzeiro); Nolberto Solano, Julio Rivera (Sporting Cristal)

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