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14/6/2014 16:47

Conquistador de ruas

Promessa do atletismo nacional, o novo atleta da equipe do Cruzeiro, Altobeli Santos da Silva, conta sua história de superação e vislumbra um futuro de títulos com a camisa cinco estrelas

Conquistador de ruas

Fotos: Bruno Senna
Por Gustavo Aleixo


O suor escorria no rosto. O arranque veloz e o passar das pernas faziam com que ele quase voasse rente ao chão. Mil metros com o cronômetro girando, seguindo em frente até o fim. A reta final é completada e o tempo para. Dois minutos e 42 segundos. O olhar do treinador mostra satisfação com o rendimento de seu novo atleta. “O melhor tempo de um corredor meu nesta pista”, destaca o comandante Alexandre Minardi.

Altobeli Santos da Silva é um novato com 23 anos e uma grande promessa do atletismo celeste e nacional. Em pouco mais de meia hora de conversa, o atleta conta a sua história, cheia de enredos e reviravoltas. As lembranças surgem em sua mente e constroem a figura de um homem que merece receber com toda a justiça a alcunha de vencedor.

Seguindo em frente

Filho da baiana Eliene e do carioca Paulo, Altobeli nasceu em Catanduva, no interior de São Paulo. O nome inspirado no atacante campeão mundial pela Itália em 1982, Alessandro Altobelli, foi ideia do pai, que se separou de sua esposa três anos após o filho nascer.

A mãe, que sofreu maus tratos na infância e chegou a morar na rua, se responsabilizou pelo sustento do garoto e de sua outra filha, Michele. “Não tive uma infância normal, de poder ser livre, brincar. Eu tinha que ficar ajudando a minha mãe. Se não ajudasse, apanhava ou ficava de castigo”.

Não demorou muito para Altobeli buscar o mesmo caminho que dona Eliene trilhou e que sua irmã também seguiu ao completar 14 anos. “Quando eu tinha 13 anos, quis sair de casa. Não saí em definitivo, mas cheguei a dormir algumas noites como um morador de rua”, relembra o corredor. “Minha mãe não me procurava. Ela nunca deu atenção para os filhos. Não sei o que é amor de mãe. Não me lembro dela ter me dado um beijo no rosto, contado historinhas. Gosto dela, mas acho que por dentro sinto um pouco de mágoa.”

Altobeli recorda os dias em que perambulava sozinho pelas ruas de Catanduva, muitas vezes sem ter o que comer. O jeito era ele se virar. “Tomei conta de carro para comprar comida, passagem de ônibus. Já passei o Natal e o final de ano na rua. Muitas vezes eu chorava. Cheguei a desejar morrer, de tanto sofrimento. É ruim, você ser uma criança e passar situações como essas”.

Sua mãe não sabia mas, sempre que podia, ele voltava à noite para dormir no aconchego de um lar. O cômodo vazio em cima da laje era ao mesmo tempo esconderijo e abrigo para o adolescente que escalava em silêncio as paredes de casa apenas para ter um lugar onde poderia descansar os pés, cansados de tanto tocar o piso seco das calçadas.

A história se repetiu até os seus 18 anos, quando o garoto começou a trabalhar por conta própria. Altobeli sabia que podia contrariar um futuro que muitas pessoas davam como certo. “Os vizinhos achavam que eu iria virar drogado, mendigo, que ia ser preso, que não ia ser ninguém. Mas eles estavam errados. Meu pensamento foi sempre de vencer na vida, ser um campeão”, ressalta.

A reviravolta em seu destino aconteceu quando ele trabalhava distribuindo panfletos. Em um dia de sol quente, o jovem viu um outdoor que anunciava uma corrida que daria ao vencedor uma moto 0 km.

No dia da prova, Altobeli correu de chuteiras soçaite, bermuda, boné e uma camisa de manga comprida. O resultado não poderia ser outro senão a 33ª colocação. O ainda inexperiente atleta voltou cabisbaixo para casa, porém, no meio do caminho, ele recebeu uma notícia que o fez retornar às pressas para o local da corrida: ele tinha sido o campeão da categoria de 16 a 19 anos.

Empolgado, Altobeli acabou fazendo um teste com o treinador de atletismo Guilherme Salgado, que ficou impressionado com o potencial que o seu jovem pupilo tinha. Talentoso, o novo corredor, pouco tempo depois, passou a receber um auxílio da prefeitura de Catanduva. “Meu primeiro salário foi de 200 reais. A prefeitura não pagava a hospedagem [dos atletas], então tínhamos que viajar uma hora da manhã, viajava a madrugada toda, sem dormir direito, para chegar na competição às 8h.”



As coisas só melhoraram quando Altobeli recebeu seu primeiro patrocínio. Com seis corridas totalmente pagas durante o ano, ele pôde desenvolver seu potencial e começou a chamar a atenção de equipes mais poderosas do atletismo nacional. Correndo com a nata do esporte, chegou à seleção em 2012. No ano seguinte, o fundista ganhava ainda mais destaque ao conquistar a Meia Maratona do Rio de Janeiro, prova que há oito anos nenhum corredor brasileiro vencia.

O bom rendimento em 2013, somado à quinta posição geral na São Silvestre, acabou por despertar os olhares de Alexandre Minardi, diretor e técnico do atletismo cinco estrelas. “Foi a melhor proposta que recebi na minha vida. Eu não estava esperando, foi muito gratificante”, diz Altobeli.

Casado e dono de uma casa própria, o antes quase morador de rua vive hoje um momento de estabilidade. Com a cabeça tranquila, vislumbra um futuro ainda melhor correndo pela principal equipe de atletismo do país. “Aqui tenho tranquilidade para treinar, me preparar, escolher as corridas certas e fazer o meu melhor. Só tenho que agradecer ao Cruzeiro por tudo que tem me proporcionado”, finaliza o campeão das pistas e da vida.



993 visitas - Fonte: Site Oficial


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